Por: Susan C. Camargo
O filme Viveiro (originalmente Vivarium) teve sua estreia em 2019 em alguns poucos circuitos de cinema. Sem fazer muito alarde, o filme não é como os grandiosos blockbusters de divulgação maciça que os tornam impossíveis de não serem notados. Tanto que só foi dar as caras aqui no Brasil em 2020, em um dos serviços de streaming disponíveis por aqui.

Figura 1: Imagem de “Viveiro”.
É um filme mais intimista, mas que ainda assim merece atenção por criticar o que há de mais corriqueiro: as instituições sociais da vida moderna. O início do filme mais parece um documentário, em que acompanhamos brevemente um filhote de cuco que, deixado no ninho de outro pássaro, expulsa os filhotes da outra espécie do ninho, para que possa receber toda atenção de sua ‘mãe’.
Esses primeiros minutos não são aleatórios, mas só entendemos isso mais adiante, já que a história principal é a de um jovem casal, Gemma, uma professora de jardim de infância, e Tom, o zelador e jardineiro da escola, que, na esperança de encontrar o lugar perfeito para morar, acompanham um estranho corretor de imóveis até um bairro misterioso, repleto de casas idênticas. O outdoor gigante na entrada do condomínio, aliás, não exagera ao trazer os dizeres “Você está em casa agora. Casas de qualidade para famílias. Para sempre”, já que de fato ela será para sempre na vida dos dois.

Figura 2: cena de “Viveiro”.
O condomínio parece mais uma pintura surrealista, com uma simetria que incomoda, tamanha a perfeição. Mesmo no céu, o sol é perfeitamente redondo e as nuvens são todas iguais em forma e tamanho! Bastam poucos minutos no condomínio e a figura estranha do corretor, que os levou até lá, simplesmente desaparece. Gemma e Tom se desesperam tentando sair daquele espaço, mas não há mais volta: aquele é seu lar, e lá é onde viverão.
Quando menos se espera, um bebê aparece para que o casal cuide, e ele vem acompanhado de um bilhete: criem a criança, e serão libertos. E é aí que, apesar das metáforas e da fantasia cinematográfica, temos a expressão de uma das instituições mais antigas que conhecemos: o casamento. Afinal, a busca pelo lar é uma aspiração que ainda dá sentido à maioria dos casais que se encontram em um relacionamento sério: comprar uma casa (ainda que o financiamento seja pago pelo resto de suas vidas), constituir uma família com um filho ou mais, criar esses filhos e... Morrer!
No caso de Gemma e Tom, e a criança que aparece misteriosamente tal qual os cucos deixados nos ninhos alheios, é uma representação dos filhos não planejados que podem aparecer na vida de alguém, obrigando-os a tornar-se mães, pais, ou no mínimo responsáveis por prover as necessidades daquele ser indefeso, custe o que custar.

Figura 3: cena de “Viveiro”.
O filme demonstra que nem sempre as pessoas conseguem se adaptar a uma rotina de família e critica justamente o modo como ainda hoje, o estranho é não aspirar por um lar e uma família nuclear, afinal, é esse o sentido da vida, e seria isso que a tornaria perfeita.
Viveiro é, sem dúvida, um filme estranho. Mas é estranho por questionar aquilo que já está tão normalizado, que torna anormal aqueles que não desejam fazer parte daquele cenário familiar. É um filme para nos fazer questionar acerca de nossos próprios viveiros e o sentimento de clausura que as instituições sociais são capazes de provocar.
Referências
VIVARIUM. Disponível em: < https://www.imdb.com/title/tt8368406/>. Acesso em: 18 jun. 2021.
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